Há anos que a RTP trata a diáspora como destinatária das sobras da grelha sempre que a seleção entra em campo. A RTP Mundo, antiga RTP Internacional, é apresentada como a janela do serviço público para quem partiu. Mas, nos momentos que mais contam, é essa janela que se fecha.

Convém separar o que se compreende do que não tem desculpa. Que um jogo de qualificação da UEFA ou da FIFA não passe lá fora, percebe-se: os direitos são vendidos por território. Ainda assim, importa lembrar que vários países contornam a limitação, oferecendo o mesmo sinal a residentes e a emigrantes. Não é uma fatalidade técnica, é uma escolha. E Portugal, com uma das maiores diásporas da Europa face à sua população, escolheu não a tornar prioridade.

O problema agrava-se quando saímos do terreno dos direitos e entramos no das opções editoriais. Os amigáveis são organizados pela Federação e não estão presos ao regime das grandes provas. São, precisamente, o conteúdo que a RTP poderia levar à diáspora sem grandes obstáculos. E é aí que a desigualdade salta à vista. Esta noite, 6 de junho, enquanto a RTP1 transmitia em direto o Portugal-Chile, no Jamor, a RTP Mundo enchia o mesmo horário com a gala dos PLAY (Prémios da Música Portuguesa), que decorrera a 23 de abril. Aos portugueses do país, o direto; aos do estrangeiro, um diferido com mês e meio.

A contradição atinge o ponto mais alto quatro dias depois. A 10 de junho, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, a RTP1 transmite o Portugal-Nigéria, último teste antes do Mundial. À diáspora, no entanto, a RTP Mundo reserva um documentário e a reposição do concurso «Joker». No próprio dia oficialmente dedicado aos emigrantes, são os emigrantes que ficam sem a seleção, trocados por um jogo televisivo em segunda mão. Difícil imaginar divórcio mais eloquente entre o discurso e a prática.

A incoerência fecha-se com o futebol de clubes. A RTP leva à diáspora um jogo da I Liga por jornada: encontra forma de transmitir clubes, mas não a seleção, o único símbolo que supostamente une todos os portugueses acima do clube e do país onde vivem. Se o obstáculo fossem os direitos, valeria igualmente para o campeonato. Se for o interesse do público, a seleção é, por definição, o conteúdo mais agregador que existe. Em qualquer cenário, a opção atual sai mal.

A RTP gosta de se afirmar como a casa de todos os portugueses. Que comece pelos casos em que os direitos o permitem, a começar pelos amigáveis, e deixe de servir à diáspora os restos da grelha. Enquanto isso não mudar, fica a sensação de sempre: a seleção é de todos os portugueses, menos daqueles que a veem de longe.