Continuou hoje o julgamento do português, A.R., acusado de ter atingido com mais de trinta tiros de pistola sua ex-mulher e o seu filho mais velho num apartamento em frente à estação de comboios de Payerne, em Abril de 2018.

A procuradora Elodie Pasquier salientou: “uma ausência total de arrependimento”, “factos extremamente graves” e “a culpa esmagadora de um assassino”. Confrontada com o impassível e insensível emigrante português, cujas palavras não foram traduzidas, a Procuradora pediu ao Tribunal criminal para condenar o antigo pedreiro de 53 anos a prisão perpétua. Para além da deportação.

A acusação lembrou o horror da cena do crime e o estado dos corpos, sobre os quais foram disparados cerca de trinta tiros de pistola na ex-mulher e no filho.

Infância complicada

A defesa do português apontou os “limites intelectuais” de A.R. e o experiente advogado do emigrante tentou provar que não houve premeditação do crime. “O vizinho viu-o sair com as suas chaves e carteira, mas sem saco. Assim, a arma já estava no seu carro, caso este homem que trabalhava mesmo aos sábados tivesse a oportunidade de ir praticar o seu passatempo. Isto é um absurdo para nós. Mas para este homem que é constantemente menosprezado, a sua incapacidade de lidar com as palavras foi substituída por armas”, disse Patrick Michod. O advogado considera ainda que os gestos do filho mais velho, teriam levado ao carregamento e depois ao primeiro tiro da arma, que o pai teria afundado num “caos emocional”, levando à carnificina que aconteceu.

Na segunda-feira, as duas irmãs de A.R. testemunharam a infância complicada do emigrante numa aldeia sem água potável. “A.R. era o mais pequeno, ele levava por nós, espancado até aos ossos”, disse um das irmãs.

A.R. muito contraditório

No dia de ontem, A.R. repetiu várias vezes ao intérprete que é analfabeto, que o significado das suas afirmações anteriores lhe escapa. “Lamento se vos disser o contrário agora ou daqui a um mês. É um impedimento à fala, não lido com as palavras da mesma maneira que você”. O emigrante português não tinha a certeza sobre as datas de falecimento dos seus pais.

Apesar de garantir que não foi a casa da sua ex-mulher para a matar e que não apoia a violência contra ninguém. A procuradora lembrou e questionou: “A última mensagem que você enviou ao seu filho foi ‘volta para casa ou bato-te até ficares negro’. Lembra-se disso?”. A.R. apenas disse que “é uma expressão usada no norte de Portugal”.

O arguido português enfrenta uma pena de prisão perpétua, pelo menos 10 anos. A sentença será conhecida na próxima segunda-feira.