Filme “Vitalina Varela” do realizador português Pedro Costa ganha o Leopardo de Ouro em Locarno

Vitalina Varela, cabo-verdiana de 55 anos de Figueira das Naus, Ilha de Santiago, chegou a Lisboa nesta década (foi em 2013), três dias depois do funeral do marido, que emigrara para Portugal muitos anos antes. A história dela já havia sido anunciada em “Cavalo Dinheiro”, filme anterior de Pedro Costa, realizado cinco anos antes. A um nível histórico, social e político, aquela história é também um espelho da realidade de tantas mulheres cabo-verdianas que foram ficando à espera no seu país, esquecidas. Em “Vitalina Varela”, Vitalina fala por todas elas. O novo filme de Pedro Costa, denso e sublime, é uma vez mais um grande trabalho de perseverança e paciência que deve tudo a esta mulher forte e magnífica, “cheia de vida” como a origem do seu nome. Conquistou hoje, em Locarno, o Leopardo de Ouro, 32 anos depois de “O Bobo”, de José Álvaro de Morais, ter vencido o mesmo prémio – é uma das maiores distinções da história do cinema português. E foi duplamente premiado já que Vitalina Varela venceu também o Leopardo para Melhor Atriz. O júri foi presidido pela realizadora francesa Catherine Breillat, a cineasta alemã Valeska Grisebach (substituiu à última hora a também alemã Angela Schanelec), o ator argentino Nahuel Pérez Biscayart, a produtora holandesa Ilse Hughan e o jornalista italiano Emiliano Morreale. Para Pedro Costa, esta foi a quarta presença na competição do festival do Ticino, depois de “No Quarto da Vanda”, em 2000 (Menção Especial), “Caça ao Coelho Com Pau”, em 2007 (curta-metragem que integrou o filme coletivo “Memories”, com dois outros filmes de Harun Farocki e de Eugène Green – Prémio Especial do Júri) e de “Cavalo Dinheiro”, em 2014 (Melhor Realização). “Tudo o que se passa neste filme aconteceu a Vitalina”, disse Pedro Costa à imprensa. “Nunca escrevemos um argumento, falávamos apenas, eu tirava algumas notas e depois começámos a ensaiar cenas, ou momentos de diálogo. Perguntámo-nos o que poderíamos fazer. Tudo o que ela diz no filme, escreveu-o de uma certa maneira. Ou memorizou-o. O meu trabalho passou por reter, comprimir, organizar e construir o filme com isso. (…) Enquanto filmávamos, de segunda a sábado, ao longo de um ano, todos os dias eu a aproximava de um pesadelo que ela ia aprofundando a pouco e pouco.” “Vitalina Varela” é um filme magnífico sobre o presente de uma mulher, o seu confronto com a realidade em Portugal, as suas memórias de Cabo Verde. Há duas casas incomparáveis entre os dois países, com uma capela entre elas e a personagem de um padre, interpretado por Ventura. É um filme trágico como o mundo, revoltado com essa tragédia. Vitalina desce uma longas escadas no início, sobre uns pequenos degraus no final. E talvez isso abra uma centelha de esperança, porque também é de amor que Vitalina nos fala, “e se ele existe tem que dar certo”.

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