Após o trágico incêndio no bar Le Constellation, em Crans-Montana, muitas reações surgiram nas redes sociais. Vários internautas, bem como figuras públicas como Rita Ferro Rodrigues ou Catarina Furtado, lamentaram o facto de alguns jovens estarem a filmar o incêndio em vez de fugir para salvar a própria vida. No entanto, a situação foi bem mais complexa do que aquilo que é visível em alguns vídeos que circularam nas redes sociais.
De acordo com os primeiros elementos apurados, bastou cerca de um minuto para que o bar fosse totalmente tomado por uma bola de fogo, consequência de um fenómeno conhecido como “flashover” ou embrasamento generalizado súbito. A rapidez deste processo depende fortemente dos materiais presentes no espaço. Poucos segundos após o aparecimento das primeiras chamas visíveis nos vídeos partilhados nas redes sociais, a sala encontrava-se já completamente em chamas e praticamente sem oxigénio, tornando a fuga extremamente difícil, senão impossível.
O drama teve como banda sonora um tema de rap. Um utilizador da rede social X identificou a música que estava a tocar no bar no momento do início do incêndio, com base em vídeos gravados por clientes e posteriormente divulgados pelos meios de comunicação social. Ao utilizar a letra da canção como referência temporal, este internauta conseguiu cruzar várias gravações, demonstrando que o fogo se generalizou em cerca de um minuto, deixando poucas hipóteses de sobrevivência às pessoas que se encontravam no interior do estabelecimento.
Embora o inquérito em curso venha a esclarecer com maior precisão as causas exatas do incêndio, esta rapidez reforça fortemente a tese do flashover, um fenómeno particularmente temido pelos bombeiros devido ao seu carácter súbito e devastador.
O embrasamento generalizado súbito inicia-se geralmente com um foco de incêndio num espaço semiaberto. No caso do bar Le Constellation, tudo indica que velas com faíscas terão provocado a ignição das espumas insonorizantes fixadas no teto. Sem possibilidade de evacuação imediata, o fumo e, sobretudo, o calor acumularam-se junto ao teto. Tal como num forno, essa elevada temperatura irradiou por todo o espaço, aquecendo paredes, teto e mobiliário.
Este processo desencadeou a chamada pirólise: sob o efeito do calor intenso, os materiais presentes — revestimentos, teto e mobiliário — começaram a decompor-se quimicamente, libertando gases inflamáveis. Quando a temperatura atinge um determinado limiar, cerca de 600 graus Celsius, e com a entrada de uma pequena quantidade de ar, esses gases, as fumigações densas e os objetos sobreaquecidos entram em autoignição espontânea, transformando todo o espaço numa enorme bola de fogo.
O flashover gera ainda um forte efeito de sopro ou deflagração, o que poderá explicar o estrondo referido por várias testemunhas presentes no local. Na noite de 1 de janeiro, bastou aproximadamente um minuto para que este fenómeno se produzisse no bar de Crans-Montana.
Importa igualmente sublinhar que os elementos atualmente conhecidos da investigação apontam para possíveis falhas de segurança, ainda sujeitas a confirmação: a porta de emergência poderia estar trancada, o sinal luminoso da saída de emergência não estaria operacional, os funcionários não teriam recebido formação adequada sobre procedimentos de evacuação, a música não teria sido interrompida, nenhum alarme teria sido acionado e a sala poderia encontrar-se sobrelotada. Outros fatores continuam a ser analisados pelas autoridades competentes.
Perante este conjunto de circunstâncias, torna-se plausível que tenha sido extremamente difícil para os jovens presentes anteciparem, nos primeiros instantes do incêndio, consequências tão rápidas e devastadoras. A realidade do que ocorreu poderá ultrapassar largamente a perceção transmitida por alguns segundos de vídeo partilhados nas redes sociais.
