No segundo dia do julgamento no Tribunal Criminal de Genebra, a defesa do cidadão português de 60 anos acusado de incêndio intencional e de homicídio por dolo eventual tentou recentrar o debate na avaliação objetiva dos factos, afastando-se da carga emocional do caso.
“O que aconteceu naquela noite é trágico. A defesa não nega os factos, nem a dor das vítimas. Mas este processo não é o da dor ou do luto, é o de um homem”, declarou Me Marie-Laure Chèvre, advogada do arguido.
O processo diz respeito ao incêndio ocorrido na noite de 5 para 6 de julho de 2023, no bairro do Lignon, em Vernier, que causou a morte de uma mãe e do seu filho, vítimas de intoxicação por monóxido de carbono ao tentarem fugir do apartamento.
A advogada acusou as autoridades de terem conduzido a investigação apenas contra o seu cliente. Segundo afirmou, “assim que o arguido foi identificado nas imagens de videovigilância, os investigadores consideraram que tinham o culpado”, denunciando uma alegada “caça ao homem” contra este pai de família português.
A defesa procurou também traçar um retrato mais humano do arguido, descrito como “sensível, generoso e muito ligado à família”, sublinhando que as contradições nas suas declarações se explicam por dificuldades cognitivas e não por intenção de enganar. “Ele não responde de forma incoerente por má-fé”, frisou a advogada.
O advogado Me Stefan Gisselbaek reforçou essa ideia, afirmando que a acusação se apoia em contradições que “resultam de perturbações e tornam a sua palavra pouco fiável”. Referiu ainda que a condenação do arguido em 2019 por um incêndio negligente — provocado por uma vela — não pode ser usada como prova no processo atual. “Ele perdeu tudo nesse incêndio. Usar esse episódio contra ele não é juridicamente válido”, defendeu.
Embora reconheça que o cidadão português esteve na cave do edifício, a defesa destaca uma lacuna de sete minutos entre a sua saída do local e o aparecimento das chamas nas imagens de vigilância. Para os advogados, essa incerteza levanta uma dúvida essencial. “Outro cenário é possível e, perante isso, ele deve ser absolvido”, afirmou Me Gisselbaek, alertando para o risco de condenar um inocente.
O Ministério Público e as partes civis rejeitam essa tese. A procuradora insistiu que “não aparece mais ninguém nas imagens”, enquanto o advogado da Fundação HBM Camille Martin ironizou a versão da defesa. Esta respondeu afirmando que é possível aceder ao local do incêndio sem passar pelas câmaras.
O Tribunal Criminal de Genebra irá agora deliberar. O veredicto é esperado para quinta-feira ao final da tarde.
🎨 Imagem de ilustração: o arguido, à esquerda, envergando um fato de treino de Portugal, durante a audiência.
Desenho de Patrick Tondeux©️
