As famílias das vítimas do incêndio mortal de Crans-Montana afirmaram ter recebido, esta terça-feira, com “consternação”, a confirmação de que não foi realizado qualquer controlo de segurança e incêndio no estabelecimento entre 2020 e 2025, segundo declarou um dos advogados que as representa.

“Os meus clientes tomaram conhecimento com consternação das informações comunicadas durante a conferência de imprensa das autoridades comunais”, declarou à AFP Me Romain Jordan, advogado de várias famílias das vítimas. O jurista sublinhou que “a quantidade impressionante de falhas e lacunas nos controlos levanta, com ainda maior urgência, a questão da abertura de uma investigação à própria comuna”. Lamentou ainda a ausência de um pedido de desculpas por parte das autoridades locais, acrescentando que “teria sido de esperar ouvir desculpas, sobretudo cinco dias após os factos”.

Nenhum controlo desde 2019

As autoridades confirmaram que não foi efetuado qualquer controlo de segurança desde 2019, não tendo existido inspeções periódicas entre 2020 e 2025. O conselho comunal reconheceu esta falha e declarou lamentá-la profundamente, sublinhando que caberá agora à justiça pronunciar-se sobre este incumprimento.

De acordo com as informações divulgadas, não foi apresentado qualquer pedido de autorização, nem em 2015 nem nos anos seguintes, para a realização de obras interiores no estabelecimento. O proprietário não era legalmente obrigado a solicitar autorização à comuna de Chermignon e, por esse motivo, não o fez.

O responsável pela segurança solicitou a realização de controlos, tendo sido efetuada uma verificação que não revelou qualquer problema com o material acústico existente no local.

Em 2017, foi pedido o acréscimo de uma pega numa porta de saída. Nessa ocasião, o responsável pela segurança não detetou qualquer problema no revestimento acústico do teto. Após essa data, não foram realizados novos controlos periódicos até à ocorrência do incêndio.

Investigação penal em curso

De momento, apenas os dois proprietários franceses do bar, Jacques e Jessica Moretti, estão a ser alvo de uma investigação penal, sendo suspeitos de homicídio por negligência, ofensas corporais por negligência e incêndio por negligência.

Os advogados das famílias exigem que as autoridades assumam plenamente as suas responsabilidades. “A comuna e o conjunto das autoridades devem assumir integralmente as suas responsabilidades”, defendeu Me Romain Jordan. No mesmo sentido, Me Sébastien Fanti, advogado em Sion que representa quatro famílias de feridos, afirmou à AFP que “assumir responsabilidades é algo absolutamente necessário”.

A decisão da comuna de se constituir como parte civil no processo, com o objetivo de aceder ao processo judicial, foi fortemente criticada por Me Jordan. “O facto de a comuna tentar apresentar-se como vítima equivale a retirar às verdadeiras vítimas desta tragédia o seu estatuto, o que é inaceitável nestas circunstâncias dramáticas”, denunciou.