Um em cada cinco inquilinos na Suíça dedica uma parte excessiva dos seus rendimentos à habitação, ultrapassando a chamada «regra do terço», revelou a Comparis a 22 de outubro. Para fazer face às despesas, algumas famílias são obrigadas a cortar noutros gastos, incluindo na saúde e na previdência.
O problema não resulta necessariamente de escolhas de habitação dispendiosas, mas de um mercado imobiliário cada vez mais saturado, onde encontrar uma casa a preços acessíveis se tornou uma tarefa difícil. Para muitos agregados familiares, a solução passa por abandonar os centros urbanos e procurar alojamento no campo ou noutros cantões.
Zurique perde residentes para outras regiões
Um estudo recente do UBS evidencia a dimensão desta migração interna. Entre 2021 e 2025, a cidade de Zurique perdeu mais de 21 500 habitantes para outras comunas, a maior saída líquida deste tipo registada na Suíça. No mesmo período, cerca de 38 000 pessoas vindas do estrangeiro instalaram-se na cidade, permitindo que a população continuasse a crescer.
A saída de residentes desencadeia um efeito em cadeia no mercado imobiliário. Inicialmente, muitos procuram casa no vale da Glatt e na região de Zimmerberg. O aumento da procura reduz a oferta disponível e pressiona as rendas, levando cada vez mais famílias a procurar alojamento noutras zonas, como o Alto e o Baixo País de Zurique e a região de Winterthur.
Outros agregados acabam por atravessar as fronteiras cantonais. Na Argóvia, regiões como Mutschellen, Baden e Aarau estão entre os destinos procurados. Schaffhausen e o vale do Thur, no cantão de Turgóvia, também beneficiam desta deslocação de população.
Cantões periféricos registam maior crescimento
Esta tendência reflete-se nos números demográficos. Nos últimos cinco anos, os cantões de Schaffhausen, Valais, Friburgo, Argóvia e Turgóvia registaram os maiores aumentos populacionais, com um crescimento anual médio entre 1,4% e 1,6%, segundo os dados citados pelo UBS.
Um dos fatores que ajuda a explicar a pressão sobre a habitação é o desequilíbrio entre a procura e a construção de novas casas. Entre 2021 e 2025, a população suíça aumentou cerca de 460 000 pessoas, o equivalente à formação de aproximadamente 240 000 agregados familiares. No mesmo período, foram construídas apenas cerca de 220 000 habitações.
Crescimento demográfico abranda, mas rendas devem continuar a subir
O estudo da UBS prevê, contudo, um abrandamento do crescimento demográfico. Para 2026, estima um aumento populacional de 0,7%, abaixo dos 0,8% registados no ano anterior. Entre os fatores apontados estão a redução da mão de obra e a diminuição do saldo natural da população — a diferença entre nascimentos e óbitos.
Em 2025, este saldo foi de cerca de 6200 pessoas, o valor mais baixo desde 1918. A imigração continua, assim, a ser o principal motor do crescimento demográfico suíço.
Apesar deste abrandamento, uma melhoria rápida do mercado imobiliário não parece provável. O estudo da UBS antecipa ainda uma estabilização gradual, apoiada pelo menor crescimento da população e por uma ligeira recuperação da construção. Ainda assim, a previsão é de que as rendas continuem a aumentar numa primeira fase, frustrando as expectativas de quem aguarda uma descida dos preços.
