A história de vida de uma emigrante “improvável”

Esta história de vida da Helena Figueiredo, de uma “Emigrante Improvável” da última geração, dos que trilham os caminhos da emigração, foi publicada no Facebook – Nós nos Outros, e relata na primeira pessoa as histórias de vida de quem teve que deixar o seu país e emigrar. Tendo emigrado para a Suíça, lutou e conseguiu ter um emprego de motorista de autocarros de transportes públicos em Lausana (Vaud).

Helena Figueiredo – Uma emigrante improvável

A menina 

“Tenho 44 anos e sou emigrante na Suíça desde há dois anos. Considero-me uma emigrante improvável, porque já tive uma boa condição financeira mas, por vicissitudes várias, emigrei disposta a fazer qualquer trabalho, desde que fosse digno…

Nasci na Asseiceira, uma terra de oleiros perto de Tomar. O meu pai era um deles. Estabeleceu-se por conta própria e abriu uma loja junto à estrada. Era um homem muito conservador. Eu tenho um irmão quatro anos mais velho, que cresceu com toda a liberdade para poder sair, enquanto eu era a menina que tinha de viver fechada em casa. O meu pai levava o meu irmão para a olaria e eu ajudava a minha mãe na loja: muito pequena, sentava-me no chão a embalar loiça, porque não tinha altura para chegar ao balcão. Ao princípio não havia caixa registadora e eu fazia os trocos no avental da minha mãe. Com os anos, o negócio da loja foi crescendo: passámos a comprar cerâmicas a muitos fornecedores, para revenda, e viemos a informatizar a loja. O meu irmão tinha jeito para a olaria e não gostava de estudar. Eu era muito boa aluna, queria sempre saber mais. No 11º ano tinha excelentes notas, uma média elevadíssima mas cometi a burrice de começar a namorar aquele que viria a ser o meu marido. No final do 12º ano já não fiz os exames nacionais porque ele não queria que eu continuasse os estudos. Para desgosto dos meus pais, fiz-lhe a vontade. Quando tomei consciência do erro que fiz, resolvi terminar o namoro e, em Setembro, ainda me consegui inscrever em Leiria, no polo da Universidade Católica, num curso de Línguas Aplicadas à gestão e comunicação. Os meus pais pagaram-me o curso, a estadia em Leiria e ainda me deram um carro logo aos 18 anos. No final do primeiro ano reatei o namoro e o curso ficou-se por ali. Não será justo só atribuir a responsabilidade a ele. É que eu também já estava tão embrenhada no negócio familiar e em particular na gestão da loja, que não queria perdê-la de vista. Além disso, os clientes estavam muito habituados ao meu atendimento, os fornecedores às minhas compras e eu,… eu ganhava dinheiro. Pensei: “Para que preciso eu de um curso? O meu namorado tem razão!” O tempo viria a demonstrar-me que não tinha!”

O divórcio

“Tinha um carro à porta, um namorado, mas a educação conservadora mantinha-se. Então fiz outro disparate: casei com 19 anos! Fomos viver para o Entroncamento. Ele tinha baixos estudos e, com o casamento, veio trabalhar no negócio familiar. Não era culto mas era extrovertido, divertido, tinha jeito para vender mas também para conviver: gostava de sair com os amigos e de beber. Três anos depois de casar tive o meu primeiro filho, que acabou de fazer 23 anos e é actualmente enfermeiro em Portugal. O meu marido estava já muito enraizado na família e no negócio mas o problema do álcool, que eu tentava esconder, agravava-se.

Todas as noites ia para o café que ficava por baixo do nosso apartamento. O meu pai desconhecia essa realidade e deu-nos um terreno no qual construímos uma boa vivenda. Ele afogava-se em bebida e eu, nos filhos e no trabalho. Tive o segundo filho seis anos depois do primeiro e ia aguentando o casamento pelos filhos e pelo meu pai, para quem o meu divórcio seria uma vergonha. Tomei a decisão de me divorciar!

Para conseguir ficar com a casa que era minha, tive de lhe dar a casa do Entroncamento, que era dos meus pais. A minha conta bancária ficou sem saldo porque ele levantou todo o dinheiro que eu tinha. Tive de me sustentar a mim e aos filhos e pagar o crédito da casa só com o meu salário. Trabalhava como uma louca. De dia vendia e à noite ia entregar encomendas. Valeu-me a carta de pesados tirada aos 21 anos, a qual viria também a ser-me muito útil anos mais tarde.”

Amigo de infância

“Quando me divorciei aos 35 anos e vi que o meu marido me deixou sem um euro na conta. Voltei a estudar, licenciei-me em Gestão Turística e Cultural em Tomar e fiz mestrado em Desenvolvimento de Produtos de Turismo Cultural. Frequentava poucas aulas devido ao trabalho, mas o curso correu tão bem – acabei com 17 – que o director me convidou para fazer um estágio num museu perto de Turim, no norte de Itália. Disse-lhe que não podia, porque tinha a loja e os filhos. Mas os meus pais deram o maior apoio. Ficaram com as crianças e lá fui durante três meses. Naquele museu era a única pessoa que falava inglês. Trabalhava meio dia e interagia muito com a comunidade local, porque não sabia estar parada. Mesmo a partir de lá, geria as encomendas da loja por email. O meu pai, durão e autoritário, chorava de saudades, tal era a ligação que tinha comigo. Convidaram-me para lá ficar mas eu não podia e voltei. Naquela altura, até o meu filho mais velho ajudava na loja, porque os meus pais não sabiam trabalhar com o sistema informático.

Um tempo mais tarde vim a refazer a minha vida com um amigo de infância do meu irmão. Tem sido uma mão muito amiga, para mim e para os meus filhos. O meu pai aceitou bem. A sua preocupação, e a minha também, seria a reacção dos meninos.
No primeiro dia que ele foi a nossa casa, expliquei-lhes que era um amigo especial. O meu filho mais novo perguntou-me se ele iria morar lá em casa, ao que eu respondi que só o tempo o diria. Disse-me o que nunca pensei ouvir: “Eu até gostei dele! Não me importo, porque eu vi que tu tinhas cerveja no frigorifico e ele bebeu sumo de laranja comigo!”

O meu pai para sempre

“Em 2016 o meu pai adoeceu gravemente e faleceu no espaço de meses, depois de corrermos os médicos todos. Eu sofri imenso, tal como os meus filhos. O meu pai foi como um segundo pai para os netos. A sua partida deixou-nos a todos sem chão. Vieram depois as inevitáveis partilhas. Por sorteio, o meu irmão ficou com a loja – o bem mais valioso – e eu com alguns terrenos e imóveis abandonados. Tenho apenas um baixo rendimento de um deles; o resto só dá despesa. A aldeia ficou chocada quando soube que eu ia deixar a loja.

Nessa altura o meu companheiro recebeu uma proposta de emprego na Suíça, onde já vivia uma irmã sua. Ele não me queria deixar, mas eu já não tinha nada a perder. Disse-lhe que iria fechar o ano da loja e que em três meses me juntaria a ele. O meu filho mais velho estava no último ano da faculdade e permaneceu; o mais novo ficou com a minha mãe até eu criar condições para o receber. Para isso precisava de trabalhar, mas um emprego não se arranja num estalar de dedos. Nem sequer tinha autorização de residência; só consegui emprego em casa de uma família a tomar conta de crianças e a fazer trabalho doméstico. Após três meses, regressei a Portugal para junto dos filhos, mas os tempos já não eram os mesmos: não encontrei um projecto profissional satisfatório. O filho mais velho estava bem, já com namorada e eu regressei à Suíça desta vez com o mais novo. Em Portugal ele não gostava de estudar mas aqui está a fazer um curso profissional de Gestão de Comércio, com aulas um dia por semana e os restantes em estágio numa importante rede de supermercados.

Arranjei trabalho durante três semanas numa empresa de limpezas, cuja proprietária era portuguesa. Foi a pior experiência da minha vida. Trabalhávamos em grupos de duas pessoas e nem à casa de banho podíamos ir. Era-nos dito que utilizássemos um balde e o despejássemos na rua. Só queria que ela me fizesse um contrato de trabalho para poder ter autorização de residência, mas não aguentei. No dia em que me ia despedir, caí na neve e parti um pé. Na Suíça, sem seguro de acidentes de trabalho, isso não me podia acontecer.”

O autocarro articulado

“Na sequência do meu acidente, a dona da empresa viu-se obrigada a fazer-me um contrato, embora tivesse registado apenas metade das horas que eu efectivamente fazia. Assinei-o porque não podia atrasar mais a operação: fiquei com o pé ao contrário e estive três dias à espera de ser operada.

Quando recuperei, voltei a trabalhar com duas famílias, uma sueca e outra francesa, a tomar conta das respectivas crianças em simultâneo. Eu geria bem as crianças e as tarefas domésticas e os pais partilhavam o meu salário. Fazia mais horas do que era a minha obrigação, mas fi-lo porque o trabalho reconhecido faz-se com outra motivação. Estive com essas famílias, de quem me tornei muito amiga, um ano e dois meses.

Um dia fui com eles a Lausanne e apanhei um transporte público: era um autocarro articulado, de 19 metros, conduzido por uma senhora e pensei: “Que giro! Adoraria conduzir um veículo destes!” Quando cheguei a casa fui à internet para ver se a empresa transportadora estava a recrutar. Vi que sim! Eu cumpria quase todos os requisitos, menos um: era preciso viver na Suíça há mais de três anos e eu não tinha cumprido nem metade desse tempo. Arrisquei candidatar-me porque… não custa nada tentar.

Quando fui à entrevista, fui confrontada com a questão da residência mas lá convenci a pessoa que não era meu objectivo regressar a Portugal tão cedo e que os custos da formação não seriam comprometidos. Passei nos testes psicotécnicos mas disseram-me que eu tinha habilitações a mais para o cargo. Lá expliquei que também lavei escadas e cozinhei e aguentava bem com todas as pessoas que me entrassem pelo autocarro noite adentro, fossem malcriadas, bêbedos ou delinquentes (risos).

Consegui o emprego à conta da coragem que sei que tenho. Só não contava que me fosse tão difícil dizer às famílias de quem tanto gostava que tinha arranjado um outro emprego. Disse-o lavada em lágrimas, mas não podia desperdiçar aquela oportunidade: ia ter uma formação de seis meses remunerada, ia ganhar quase o dobro e trabalhar numa empresa pública, com bastantes regalias associadas.”

Portugal no coração

“Recentemente, devido à pandemia, já não posso abrir as portas do autocarro automaticamente: mantenho a da frente fechada e abro manualmente as três portas de trás. Os lugares mais próximos do condutor, habitualmente ocupados por idosos que gostam de conversar comigo, vêm vazios porque passaram a estar isolados com uma corrente, para minha protecção.

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Economicamente, sei que a nossa vida aqui é bem melhor do que a que teria se tivesse ficado com a loja em Portugal, face às dificuldades que o comércio atravessa.Vejo os meus filhos bem encaminhados.
O mais novo, que não gostava de estudar, está orientado aqui na Suíça e o mais velho já trabalha como enfermeiro: acabou o curso com excelente nota e é um rapaz muito responsável. Só tenho pena que a enfermagem em Portugal seja tão mal remunerada. Vou a Portugal sempre que posso e adoro o meu país. Tenho lá a minha casa, a minha mãe, o meu filho e um grupo de amigas muito fiel, com quem me reuno com frequência. Infelizmente, por causa da actual crise sanitária, não pude ir para celebrar os 80 anos da minha mãe, que completou no dia 20 de Março.
Também adoro o trabalho que aqui tenho!
Vim para a Suíça para poder proporcionar aos meus filhos uma vida semelhante à minha, nem que para isso tivesse tido de lavar escadas, porque sei que as oportunidades para eles são piores do que as que eu tive.
E se há coisa que sempre lhes quis proporcionar foi o acesso aos estudos e, dentro do possível, a oportunidade de viajarem.
As viagens são uma enorme fonte de conhecimento e crescimento pessoal. Mas não tenho dúvida de que acabarei os meus dias em Portugal.
Eu acho que os portugueses são “grandes” em inteligência e capacidade de trabalho. Só tenho pena é que tenhamos que encontrar, fora, as oportunidades que não temos no nosso país.”

 

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